Quem controla o trabalho do professor?
- LAPES

- 3 de jun. de 2019
- 5 min de leitura
Glicia S. Gripp
Universidade Federal de Ouro Preto
O campo educacional brasileiro vive um momento singular. Não que tenha existido algum tempo sem conflitos e lutas, mas assistiu-se, no país, nas últimas décadas, um mínimo de consenso em alguns pontos considerados fundamentais: descentralização administrativa e pedagógica, autonomia escolar e participação local, avaliação e medição dos resultados; equidade e qualidade, discriminação positiva em relação a grupos vulneráveis, aperfeiçoamento e valorização docente. Grupos distintos divergiam quanto à forma de atuação em cada um desses pontos, mas havia um consenso sobre o que se deveria discutir. Agora, são esses consensos mínimos que estão desafiados. Na verdade, é o próprio sistema educacional que tem sido questionado em sua própria existência, com uma virulência inédita. Além disso, há uma suspeita, por parte de alguns grupos, de que o grande problema educacional no país é resultado das políticas dos últimos governos – do governo Fernando Henrique Cardoso até o governo Temer - e que ele repousa especificamente em uma “doutrinação dos estudantes” pelos professores e esses grupos propõem um controle externo sobre o professor em sala de aula e um controle sobre o conteúdo da aula e até da fala dos professores. O Ministério da Educação conclama alunos e pais a delatarem os professores que fazem aquilo que eles denominam de “doutrinação”.
Ora, uma coisa é fazer um julgamento da realidade: sim, a educação brasileira apresenta problemas graves e a resolução desses problemas é o que se espera de um novo governo. Pode-se também dizer que não se gosta da forma como a educação é realizada. Isso também é um julgamento de realidade e é preciso, então, propor outra forma e discuti-la com a sociedade, através dos processos e caminhos democráticos previstos em lei. Outra coisa é fazer um julgamento de valor. Quando se afirma que os professores não são neutros e que se quer uma educação na qual os professores não transmitam aos estudantes os seus valores, trata-se assim de um julgamento de valor. Pedir que estudantes e pais delatem professores também esconde um julgamento de valor: a desvalorização e deslegitimação dos procedimentos democráticos. Mas, afinal, o que é educação? E quem controla o trabalho do professor?

Durkheim define a educação como “a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine” (Durkheim, 1978:41). Essa ação é caracterizada por Mannheim (1978) como uma técnica social, uma forma de educar e condicionar as crianças e os jovens para ajustarem-se aos padrões dominantes da vida social. Os dois sociólogos concordam que a educação não molda o homem em abstrato, mas em uma dada sociedade, em dado momento histórico, e para essa sociedade real. Para se compreender os objetivos educacionais de uma sociedade, é necessário se compreender também a situação de cada época, a ordem social para a qual eles são formulados. Além disso, Durkheim nos mostra que essas determinações sociais não são totais: o sistema educacional é, assim, relativamente autônomo. E, por fim, a educação é um instrumento de lutas e conflitos entre ideias contrárias, cuja eficácia pode, ela também, ser apreciada e medida em diferentes momentos da história. Essa dimensão da luta, introduzida por Durkheim, é uma categoria irredutível, inerente a todo sistema educacional e comanda sua mudança. Em uma sociedade democrática ou que se quer democrática, essa luta tem lugar nos órgãos colegiados e nos conselhos.
Durkheim discorre também sobre o papel do Estado na educação, contrapondo-se à ideia corrente em sua época de que a educação seria algo essencialmente privado e familiar. Seu argumento é o seguinte: a educação tem primordialmente uma função coletiva – adaptar a criança ao meio social - e, assim, a sociedade não pode se desinteressar dela. Esse desinteresse seria impossível, já que é a sociedade existente e real – e não a sociedade ideal - o ponto de referência dos esforços educacionais. É a sociedade que se incumbe de mostrar aos professores quais são as ideias e os sentimentos que devem ser inculcados na criança, para que no futuro ela possa viver em harmonia com o meio. É a presença e a vigilância da sociedade sobre a ação pedagógica que permite que esta exerça seu sentido social e não se submeta ao serviço de interesses particulares. Sem essa vigilância, a sociedade perderia a sua coesão, o “cimento” que une os indivíduos e a mantém. Durkheim enfatiza a função de integração moral da escola e Bourdieu enfatiza a função de integração cultural ou lógica: a escola assume cada vez mais a função de integração lógica e o produto de um sistema de ensino passa a ser um programa homogêneo de percepção, pensamento e ação. A escola é incumbida de transmitir cultura – no sentido de um código comum, cognitivo – e, portanto, ela constitui “o fator fundamental de consenso cultural nos termos de uma participação de um senso comum” (Bourdieu, 1992:226), que é o fundamento da comunicação. Essa função pertencia à religião, mas, agora, numa sociedade pluralista na qual coexistem diversas religiões, não é mais possível que uma determinada religião assuma essa função e, então, a escola a assume. E é importante frisar esse papel fundamental da escola: a integração social, em um momento histórico em que percebemos a existência de grupos distintos, de religiões diversificadas, que buscam espaços de coexistência. Cada indivíduo tem a necessidade de negociar permanentemente entre crenças e informações por vezes conflitantes e as relações entre Estado e as várias confissões religiosas são irrenunciáveis.
Logo, sendo a educação coisa eminentemente social, o Estado não pode ficar indiferente a ela, concluímos com Durkheim: o Estado deve controlar até certo ponto tudo o que diz respeito à educação, sem monopolizar - deveria deixar uma margem à iniciativa privada, já que este é o âmbito no qual as inovações aparecem mais rapidamente. O Estado deve fiscalizar a educação, ele deve ser o juiz. Por outro lado, não cabe ao Estado impor ideias e sentimentos sem os quais a sociedade não se organiza, não mantém sua coesão, e uma comunhão de ideias e sentimentos é sempre espontaneamente criada e ao Estado cabe apenas validá-la, mantê-la. Por isso, a estrutura de nossa educação é colegiada: a lei prevê conselhos educacionais, em cada instituição de ensino, nos municípios, nos estados e no governo federal. Esses conselhos são compostos por membros representantes das diversas instituições e tendências da sociedade. E é função dos conselhos assessorar aqueles que tomam decisões educacionais e filtrar as ideias vindas da sociedade na elaboração dos planos educacionais. São os órgãos colegiados que debatem, acompanham e deliberam sobre questões político-pedagógicas e administrativas em cada um dos níveis do sistema educacional. Se há algum problema no funcionamento desses órgãos colegiados, deve-se resolvê-lo e não os deslegitimar.
A educação brasileira apresenta graves problemas, que são amplamente conhecidos. Mas, é preciso verificar também, histórica e comparativamente, os invariantes estruturais e as especificidades da formação educacional brasileira. Nosso problema educacional não nasceu nos últimos quatorze anos, nem nos últimos trinta anos e é mais grave do que uma questão partidária. O debate atual é deletério porque deixa ao largo os reais problemas educacionais do país.
Referências bibliográficas
Bourdieu, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1992.
Durkheim, Émile. Educação e Sociedade. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
Mannheim, Karl. “A educação como técnica social”. In: Pereira, l.; Foracchi, M. M. Educação e Sociedade. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.



Bài viết dễ theo dõi, đọc mạch lạc nên mình hiểu vấn đề rõ hơn, cảm ơn bạn đã chia sẻ. Mình cũng hay xem thống kê XSMB mỗi ngày để tiện đối chiếu, nên tự gom lại thành một trang tổng hợp cho đỡ phải tìm nhiều nơi. Ai cần số liệu cập nhật theo ngày thì ghé xem thử https://www.tizmos.com/Soicauxsmbpro?folder=Home