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Os desafios da análise de expectativas de futuro: um breve panorama

Atualizado: 1 de Out de 2018

por Eduardo Borges


Um dos interesses de pesquisa mais clássicos da Sociologia da Educação é a correlação entre desigualdades educacionais, destinos e projetos profissionais.


Compreender como as dinâmicas da vida social e os fatores socioeconômicos atuam sobre as possibilidades de acesso a níveis superiores de escolarização e a posições valorizadas no mercado de trabalho é um objetivo que se tornou central tanto para os sociólogos como para os policy makers na área da Educação. As pesquisas nesse campo foram impulsionadas a partir da década de 1960 com as teorias desenvolvidas por Pierre Bourdieu, James Coleman e Randall Collins, atualmente David Gruski, François Dubet e Jean-Jacques Paul contribuem com elas, dentre outros, que nos auxiliam a pensar sobre esse problema de pesquisa.


O que nos interessa ao analisar as expectativas de futuro de estudantes mais pobres no ensino superir são os fatores normativos da ação, ou seja, a dimensão de valores e julgamentos que os indivíduos produzem inseridos em uma estrutura social que lhes coloca situações específicas sobre as quais devem atuar e tomar decisões. Nossas expectativas em relação ao futuro são fortemente influenciadas por aquilo que vemos e vivemos no presente. A percepção da desigualdade e da “permeabilidade” do sistema educacional a indivíduos mais pobres possui forte potencial de definição de quadros de sentido e estratégias de ação.


A análise da questão implica em questionar categorias como a “vocação”. O fato de que cursos mais prestigiados como Medicina contem de maneira mais intensiva com alunos de perfil elitizado, brancos, jovens, de classe média e com dedicação exclusiva aos estudos, e cursos da área de Educação como as licenciaturas abrigarem alunos de perfil menos privilegiado não ocorre por acaso. Há uma série de condicionamentos sociais que influenciam nesse processo de “escolha”: a percepção das diferenças de qualidade da formação na educação básica bem como das dificuldades em enfrentar uma jornada de estudos em tempo integral podem influenciar fortemente a tomada de decisão do candidato que precisa conciliar estudo e trabalho.


Assim, a reflexão sobre estratégias teóricas e metodológicas se torna central para a construção do problema, visto que se trata de uma questão essencialmente empírica que não podemos responder apelando para a abstração e imputação de sentidos para a ação dos agentes. Analisar os dados sobre ingressantes e concluintes no ensino superior e verificar correlações entre variáveis sociais e cursos escolhidos não é suficiente para inferirmos expectativas. Trate-se de um trabalho complexo que deve conjugar estratégias específicas de pesquisa quantitativa que nos forneçam um panorama amplo dos contextos em que essas dinâmicas sociais ocorrem e pesquisa qualitativa para compreender as possíveis correlações existentes nos vários casos que o levantamento estatístico pode nos oferecer. Podemos afirmar a partir de um ponto de vista weberiano que as escolhas, mesmo que pareçam semelhantes à primeira vista, podem carregar conteúdos e sentidos diversos. Entender as expectativas dos estudantes significa possuir mais ferramentas para a análise do sistema de ensino superior e para a elaboração de estratégias para uma melhor formação e inserção no mercado de trabalho que reduz desigualdades sociais de forma consistente em longo prazo.


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