“Fazer ENEM” em tempos “pandemônicos”: dúvidas de estudantes de ensino médio


Devo prosseguir ou não para o ensino superior? Qual curso escolher? Qual a melhor carreira para mim? Como conseguir me sustentar na universidade? Quantas vezes posso fazer o ENEM? É difícil entrar? Essas e outras questões povoam a mente de estudantes de Ensino Médio da cidade de Miracema, no Rio de Janeiro.


Compartilho algumas observações extraídas da minha participação no Projeto “Jovens talentos para ciência” realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). O objetivo do encontro foi apresentar um panorama geral das pesquisas sobre acesso e permanência na educação superior realizadas nos últimos anos e esclarecer dúvidas dos estudantes sobre os mecanismos de acesso à universidade e sobre o sistema de ensino superior.


Em pouco mais de duas horas foi possível perceber o quanto o momento atual é difícil para este grupo que está no momento de realizar escolhas importantes para o futuro. Também foi possível observar o quanto ainda é preciso instruir os estudantes sobre as formas de obter essas informações. Nossos trabalhos têm indicado que o acesso precário à informação é um dos principais pilares da reprodução de desigualdades sociais. Associado à enorme desigualdade de renda da sociedade brasileira, que contribui para criação de pontos de partida diferentes e impedem o acesso equitativo às oportunidades disponíveis.


A apresentação realizada buscou mostrar a estes estudantes como o sistema de ensino superior brasileiro ganhou suas feições atuais e os principais dilemas sobre o acesso e condições de permanência na universidade. Expusemos como o sistema se estruturou e se expandiu no país e como as mobilizações da sociedade civil influenciaram nesta transformação e na implementação de políticas públicas de expansão do acesso e permanência nas instituições, também indicamos as principais formas de ingresso em universidades públicas e privadas. Como esperado pelos professores Antônio Gonçalves e Sandra Azevedo (IOC/FIOCRUZ) organizadores do encontro, os mais de quarenta minutos de apresentação suscitaram dúvidas e questões, tanto por parte dos estudantes quanto dos professores orientadores.


Foi possível perceber grandes preocupações em relação à pandemia e sobre como o sistema vai funcionar após a superação deste momento. Como não trabalhamos com “futurologia” podemos apenas fazer algumas indicações possíveis sobre a maior utilização das tecnologias da informação, novas estratégias didático-pedagógicas, de avaliação etc. Ainda é cedo para realizar “diagnósticos” mais aprofundados.


Dessa experiência ressalto que ao contrário do que nosso senso comum poderia indicar, informações sobre ENEM, SISU, PROUNI, FIES, opções de cursos e funcionamento das instituições ainda não são de domínio público. Essa constatação lança luz sobre o papel das instituições de ensino e dos gestores educacionais para levar estes conteúdos aos estudantes que não possuem, em suas famílias, modelos de trajetória universitária que poderiam ser fontes de informação. Poder conversar sobre estas questões é bastante estimulante e nos indica quanto trabalho ainda temos para reduzir de fato as desigualdades de oportunidades educacionais em nosso país.


A falta de informação gera medo e apreensão e influencia na autoestima dos estudantes que, muitas vezes, passam a enxergar a universidade como um “monstro” a ser vencido. O maior desafio deste encontro foi tentar estimular os estudantes a prosseguir em suas caminhadas em direção a seus projetos de futuro em um cenário tão desanimador quanto o que temos diante de nós: redução de investimentos em educação superior e assistência estudantil, restrições de financiamento a pesquisas em determinadas áreas do conhecimento, a perspectiva de uma economia em marcha lenta pós-pandemia (que não sabemos ainda quando será) e de um futuro imprevisível.


Eduardo Borges

(Doutorando, PPGSA. Pesquisador no LAPES/PPGSA/UFRJ).



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